sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Cativeiro

Escuro. Não há luz, nada se vê.

Silêncio? Predomina, não domina. Frustrado por sons emboscados no breu.

Turvas imagens, nada mais que sombras do possível, sucumbem impotentes na incerteza.

Ostenta-se um pulsar, uma energia que atrai... e trai.

Ultimadas, razão e lógica repudiam-no. Não vê nada, mas vai, o imbecil, seduzido pelo hipnótico.


Caminha às escuras. Não vê, não pensa. Vai apenas... Em direcção a quê não se discerne.

A negrura apraz-se: mais um tolo deambulante escarnecido aos seus caprichos.

Tropeça, o trôpego, e sorri pensando: "é menos um"...

Insiste, obstinado, e segue o percurso que existe apenas em si e crê levar ao que tanto aspira.

Vai. Não vê. Pensa que vence o caminho e que a umbra falhou em detê-lo.

Orgulhoso, tenta abrir os olhos para ver o que o encantou, mas estão abertos. Estiveram sempre.


Desânimo é a recompensa. Desespero. Falacioso apelo.

Engole a violência do nada e rende-se à imponência do evidente.


Tomou para si uma demanda ilusória:

Ímpar... e inútil.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

...

Sometimes I wonder why the hell we with such large brains are so inneffective when it comes to overcoming our incompetence even when it is for our own good...

Let there be mercy on ourselves for the uselessness of our inabilities.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Beleza

Não vou pôr em palavras as seguintes obras. Não teria o atrevimento.
Sigam os links e deliciem-se.


O rosto da mulher através de 500 anos de Arte
http://www.artgallery.lu/digitalart/women_in_art.html


清明上河图
http://www.npm.gov.tw/exh96/orientation/flash_4/index.html

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pingo Doce

Não é a primeira vez que dou por mim, tal como muita gente, perante publicidades irritantes, mas nunca nenhuma conseguiu invocar em mim embravecimento levemente semelhante àquele que a do Pingo Doce tem o dom de invocar.

Já não dá para aguentar o paspalho a falar da fruta e da porcaria do brix, que não interessa à minha falecida avó!

Já não dá para suportar o toninho a falar da trampa do polvo congelado com água para ser mais caro com cara de quem nos chama ignorantes, à semelhança dos discursos do PS!

Já não dá para tolerar aquela criatura a ganir, GANIR a infelicidade que é a música que tanto passa na rádio!

Já não há pachorra para a outra tansa a dizer que a comida do Pingo Doce é tão bem temperada como a da minha avó! Quem é que ela pensa que é?

E já não dá para não BERRAR ao ouvir o tom paternalista desses seres falantes que materializam estes anúncios aviltantes!

E se pegassem no dinheirinho que gastam em massacrar a paciência e boa disposição dos consumidores e fossem desparasitar as instalações por esse país fora?
Hã?


AGORA CALEM-SE, POR AMOR DA SANTA!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Á G O R A

A história da humanidade é marcada por fases, ciclos se quisermos. Estes variam muito nas suas características, mas são invariáveis nas suas dinâmicas: surgem de uma mudança, evoluem, atingem o auge e encaminham-se para a sua morte, sucumbindo ao conflito que os destrói e renova abrindo caminho a nova mudança. É assim que os impérios caem, sejam de que tipo forem.
Rachel Weisz encarna Hipatia, matemática e filósofa neo-platónica, que se mantém coerente e fiel aos seus princípios durante todo o turbulento crescendo de violência que acompanha a ascensão do cristianismo e consequente perseguição e condenação do paganismo.


Na sua incessante perseguição de conhecimento e firme no seu sistema de valores ela é o retrato da humanidade que em épocas conturbadas teima em não ceder, em não descer ao conflito inútil derivado do orgulho vazio de quem tem o poder para evitar que o caos se instale e se deixa levar por discursos incendiários, em resistir até ao fim mesmo quando sabe que está condenada. Sacrifica-se e assim se imortaliza.

Vi reforçada por Hipátia uma postura que admiro e tento, desajeitadamente, ter: uma estrutura interna sólida, realista e sobretudo verdadeira para mim que me torne firme como ser humano e mais capaz de lidar com as adversidades, infortúnios e incertezas. E de vez em quando, surpreendentemente, também com pequenas, mas essenciais, alegrias que surgem tão inesperadamente. Simples elipses que em si retêm o poder de reduzir tudo o que nos pesou e pesa a meros tropeços apenas, porque depois de tanto procurar se nos revelam.

E de repente... talvez eu mesmo esteja perante a minha elipse, agora receoso de que me escape por lhe querer tocar...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Tragédias


Sabe quem me conhece que não sou muito de lamentar as ocorrências naturais que de vez em quando nos entram em casa através da televisão. Mas há ocorrências e ocorrências. Quando vejo, leio ou ouço alguma notícia relativa à calamidade que arrasou o Haiti, não consigo deixar de me sentir mínimo perante a impotência de um país inteiro perfeitamente reduzido a nada mais que escombros, o que, posto assim, é um enormíssimo eufemismo. Não consigo sequer conceber como se sentem as pessoas que em poucos segundos viram ruir tudo o que lhes garantia alguma modesta forma de sobrevivência. Sem água, sem comida, sem medicamentos, sem casa, sem bens, sem governo, ainda muitos haitianos encontram força e humanidade suficientes para ultrapassar o desespero e cuidar dos seus compatriotas.
Contudo, não consigo também deixar de prever que essa força e humanidade sejam desfeitas em pedaços pelo imperativo essencial de sobreviver, caso não haja eficácia por parte das ajudas internacionais enviadas por tantos países. Espero profundamente que isso não aconteça.
Outra coisa que não consigo também é deixar de me envergonhar pelas lamentações que tantas vezes se ouvem disparadas de bocas abençoadas por um qualquer tipo de inteligência que me ultrapassa para se queixarem do tempo e do preço das couves perante o desespero de um país inteiro...
Verdadeiros monumentos à portugalidade que são.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Animais perigosos e potencialmente perigosos


Diz que esta nova lei é mais severa para com os proprietários de animais perigosos ou potencialmente perigosos, diz que proíbe a reprodução e, entre outras coisas, diz que há raças filhas da sua respectiva com que se tem de ter particular cuidado.
Ora, obviamente que se um cão é de raça ele vai ter determinadas características, daí ser daquela raça. Apesar disso, sede de sangue e desmembramento não fazem parte das características de nenhuma raça, logo onde está a lógica de definir listas de raças perigosas?
Essas raças são seleccionadas pelas suas características físicas para diversos fins e são esses fins que devem ser alvo de uma perseguição implacável, não são as raças que devem ser marginalizadas e etiquetadas como potenciais feras sanguinárias.
Já contactei com pit bull terriers, rottweilers e dogues argentinos todos eles calmíssimos, dóceis, brincalhões e extremamente cuidadosos. Em contrapartida já vi pequenos cães muito riquinhos que pareciam estar em constante possessão demoníaca. E quem achar que por serem pequenos não são ameaça desengane-se, porque mordem na mesma e podem perfeitamente causar danos - falo por experiência.
Relativamente ao facto de a lei ser mais apertada com os proprietários de animais de determinadas raças ela apresenta-se como solucionadora, mas a verdade é que só vai dizer respeito aos cidadão cumpridores que a sigam e respeitem. Cidadãos esses que, dada a sua postura cumpridora, muito dificilmente estarão ligados por exemplo a lutas de cães... As pessoas que se movimentam por esses submundos não só não cumpriam a lei anterior, como não vão cumprir esta ou qualquer outra que seja deficiente em termos de fiscalização e ataque às actividades ilegais e que violam os direitos dos animais.
Acima de tudo parece-me que legislar sobre este assunto muito raramente comtempla a parte interessada e que mais sofre com tudo isto: os próprios animais. É que, acima de tudo a causa destes problemas é o erro humano, porque para a maior parte de nós os nossos cães não são cães, são pessoas em corpos diferentes.
Nunca nos podemos esquecer que um cão é isso mesmo, um cão e só vai ser feliz se for tratado como um cão deve ser tratado.

Peça-se a um cão para correr e será o mais veloz...
Peça-se a um cão para obedecer e não questionará nada...
Peça-se a um cão para proteger e dará a vida...
Peça-se a um cão para ser humano e não saberá o que fazer...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Inverno

De há uns tempos para cá têm sido noticiados vários sucedidos meteorológicos menos felizes no nosso lusitano canto. São vendavais, tempestades, enxurradas, frio...Enfim, um Deus nos acuda!
Mas dou por mim a pensar que quando era petiz os invernos eram assim, potentes... Chovia furiosamente, vinham vendavais de levantar telhados, impunha-se um frio cortante e sim, havia cheias e problemas, mas pontuais.
Desta feita, com poucos meses de intempérie já por todo o país houve semanais infortúnios, passe o eufemismo, que deixaram muita gente assim para o despojada de uma boa parte do que lhes é vital, literalmente. Danos atrás de danos, cheias em consequência de obras que são feitas, como manda a lógica dos que as executam, no Inverno; condutas, certamente novas a estrear, que rebentam e deixam crateras de seis metros de diâmetro; ventos que arrancam estufas, respectivas armações e protegidas alfaces sem que certas entidades façam chegar a tempo os apoios devidos para a recuperação e sem que outras aceitem segurar este tipo de explorações...
Rai's parta o tempo, pá!

Mas animemo-nos! Afinal o Alqueva está cheio! Os espanhóis até já vieram todos ver as comportas a jorrar... E para além disso: daqui por poucos anos, teremos mais uma barragem...